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De postos de gasolina a fintechs: como o crime se infiltrou no dia a dia dos negócios no Brasil

Chegou ao cidadão comum. Foi essa a sensação que os brasileiros tiveram ao se deparar com operações de Polícia Federal, Ministério Público, Receita Federal e outras autoridades, que colocaram no centro de grandes investigações o posto de gasolina, a padaria da esquina, motéis, pequenos varejos e até mesmo aplicações financeiras e gestoras de investimento. Mais do que uma impressão, o fato de que o crime está mais próximo do mundo dos negócios pode ser visto nas tabelas abaixo. eldquo;Foi um ano de viradaerdquo;, diz Paulo Henrique Carnaúba, professor do programa avançado de finanças do Insper. Até pouco tempo atrás, as grandes investigações voltavam-se mais a tráfico de drogas, corrupção e sonegação. eldquo;Agora, elas estão mais próximas do cotidiano do grande público.erdquo; Para os especialistas, há alguns motivos por trás desse movimento. Um deles, diz Cleveland Prates, professor de economia da FGVLaw, é a necessidade de arrecadação federal, que tem investido em combate a brechas de evasão fiscal com mais afinco. Na lista dos inquéritos policiais da PF em andamento por tipos de crime, há mais de 3 mil que envolvem sonegação, supressão de tributos por meio de fraude, omissão ou declarações falsas. Outro fator, afirma Carnaúba, é o período de aprendizagem das autoridades, entre o mergulho nas investigações e o entendimento dos crimes, necessário para detonar então buscas, prisões e apreensões. eldquo;Todo fraudador tem de ter oportunidade e sensação de impunidade para praticar a fraudeerdquo;, afirma. eldquo;Como há um delay de aprendizado das autoridades, esses crimes ganharam proporção muito grande." Até o dia 15 de dezembro, foram feitas 3.310 operações da Polícia Federal, com R$ 9,6 bilhões em ativos apreendidos, quase 60% a mais do que em 2024. Mas é nas maiores operações detonadas este ano que os padrões como os descritos por Carnaúba se repetem. No caso das operações Carbono Oculto, Quasar e Tank, que foram deflagradas simultaneamente, por exemplo, havia 268 empresas ligadas diretamente ao esquema. Os alvos das operações eram sócios em pelo menos 251 postos de combustíveis, em quatro Estados. Foram usados 60 motéis para lavar R$ 450 milhões, entre 2020 e 2024. Apenas o eldquo;cabeçaerdquo; da organização tinha ligação com cerca de 100 companhias diferentes. Outro contador investigado representava 941 empresas junto à Receita Federal. A organização criminosa controlava mais de 40 fundos de investimento (com patrimônio estimado em R$ 30 bilhões). Embora cada operação tenha revelado movimentações bilionárias em suas respectivas frentes, a soma dos valores e a extensão do esquema indicam que os grupos criminosos movimentaram, no total, aproximadamente R$ 140 bilhões de forma ilícita. A segunda operação em termos de volume financeiro, a Compliance Zero, investigou a fraude praticada pelo Banco Master, segundo denúncia do Banco Central (BC), que movimentou R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito inexistentes. Também envolveu pelo menos 1,6 milhão de pequenos investidores. Esse é o número de pessoas que receberá de volta os recursos aplicados na instituição, por meio do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O desembolso total será de cerca de R$ 41 bilhões. As outras operações que não se tornaram tão famosas, mas que estão entre as maiores em movimentação financeira, envolveram varejistas, atacadistas e distribuidoras. Também outras frentes do setor financeiro. Em outubro, a Operação Bóreas mirou um esquema de sonegação tributária estruturada no setor de ar condicionados, com empresas de fachada e subfaturamento em importações. Exótico, mas com estimativa de sonegação de R$ 400 milhões e bloqueio de R$ 800 milhões. Deflagrada em 16 de dezembro, a Operação Opções Binárias, da PF, investiga a operação de plataformas digitais falsas, com promessas de lucros garantidos no mercado de eldquo;opções bináriaserdquo; e criptoativos para atrair pequenos investidores. A movimentação investigada ultrapassa R$ 1,2 bilhão. Em menor escala, também há diferentes operações que envolvem o varejo. Num dos casos, em âmbito estadual, a Operação Ambiente 186 investigou supermercados e atacadistas utilizavam eldquo;empresas noteiraserdquo; (companhias de papel que existem apenas para emitir notas fiscais) que simulam créditos de imposto e reduzem ilegalmente o valor a pagar ao Estado de Minas Gerais. O nome faz referência ao prejuízo estimado de R$ 186 milhões causado ao erário mineiro. Gato e rato Essa avalanche de operações permitiu identificar diferentes falhas em legislações e regramentos e algumas iniciativas já foram adotadas para corrigi-las. Entre elas, a aprovação da legislação do devedor contumaz, que estava parada no Congresso havia oito anos. Também a instrução normativa publicada pela Receita Federal que obriga todos os fundos de investimento a identificar o Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) dos cotistas finais, a partir de janeiro. Apenas a Receita Federal e autoridades com respaldo legal (como o Ministério Público e a Polícia Federal em investigações) terão acesso a esses dados. Ainda é preciso repensar, dizem eles, mecanismos de incentivos a eventuais fraudes, como a que aconteceu no Banco Master. Como os concedidos a plataformas para venderem investimentos que têm por garantia o uso do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Para Prates, que estuda lavagem de dinheiro há mais de 20 anos, é preciso ter cuidado para não criminalizar as fintechs, que permitiram a universalização dos serviços bancários e trouxeram competição ao setor. Porém, havia brechas que os malfeitores são especialistas em encontrar emdash; e o importante é fechá-las. Os especialistas afirmam que, historicamente, sempre que as falhas na legislação são combatidas, outras brechas são encontradas pelos criminosos. Por isso, dizem, é importante fortalecer sistemas de controle, como Banco Central e Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que cuidam do mercado financeiro e de capitais, respectivamente, entre outras. Também desenvolver expertise em combate a fraudes no judiciário. eldquo;Vejo boa vontade em apurar e aplicar lei de forma rigorosa, mas não é possível depender de advogados dos lesados para as denúnciaserdquo;, diz Carnaúba. eldquo;É preciso ter um amplo movimento de treinamento no combate às fraudes, principalmente financeiras, na Justiça.erdquo; Além disso, dizem eles, não cabe apenas ao poder público combater fraudes e crimes. eldquo;Vimos fundos de pensão públicos investindo em CDBs do Banco Master que tinham zero governança, apesar de haver regras específicas da autoridade reguladora para issoerdquo;, diz Prates. Carnaúba, que atua em investigação de fraudes (conhecido no jargão como forensics), diz ser comum que os departamentos especializados em governança e compliance (conformidade com o cumprimento de regras) não tenham especialistas nessa área. É algo que dificilmente encontra demanda, dentro das próprias empresas. eldquo;Os criminosos avançam no Brasil pela falta de governança e de expertise em contrainteligência no combate às fraudeserdquo;, afirma. eldquo;No fundo, o brasileiro é ingênuo.erdquo;

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FGTS: Com novas regras, antecipação do saque-aniversário despenca

A restrição imposta pelo Ministério do Trabalho à antecipação do saque-aniversário do FGTS, aprovada pelo Conselho Curador do Fundo em outubro e em vigor desde novembro, derrubou as operações de crédito desse tipo, principalmente para trabalhadores de baixa renda. Os empréstimos, que chegaram à casa de R$ 3 bilhões por mês, devem cair drasticamente, para R$ 150 milhões, segundo estimativas do setor financeiro. Dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC) também corroboram essa previsão. Houve uma queda de 31% na concessão de crédito pessoal não consignado em novembro, na comparação com o mês anterior, refletindo a mudança no FGTS. Limite anual Nesse tipo de operação, o trabalhador toma um empréstimo de um banco, que adianta valores que ele tem a receber do Fundo no futuro, com o acréscimo de juros. As mudanças criaram um teto para os valores adiantados e impuseram um limite no número de parcelas futuras que podem ser contratadas, entre outros pontos. Desde 1º de novembro, os trabalhadores com saldo na conta vinculada ao FGTS podem antecipar o saque-aniversário somente para fazer empréstimo com prestação mínima de R$ 100 e valor máximo de R$ 500. Além disso, só é permitida uma operação ativa a cada ano. As novas regras para antecipação do saque-aniversário do FGTS incluem também uma carência de 90 dias entre a adesão ao saque-aniversário e a contratação da antecipação, a limitação do valor ao equivalente a cinco anos de parcelas do FGTS até outubro de 2026, passando a três anos a partir de novembro de 2026. Antes, os trabalhadores podiam ter acesso a todo o saldo da conta e cabia ao banco definir o limite. Pesquisa da Associação Brasileira de Bancos (ABBC) com um grupo de bancos que responde por 70% das contratações na modalidade aponta que as operações caíram 82% em novembro. A queda deve chegar a 87% em dezembro. emdash; O mais grave é que 90% da queda ocorrida em novembro se deve à parcela mínima de R$ 100. Apenas 0,5% se deve ao teto da parcela de R$ 500 emdash; disse Alex Sander Gonçalves, diretor de Crédito Consignado da ABBC. Ele destacou que há 134 milhões de trabalhadores com saldo na conta vinculada do FGTS, mas só 49 milhões com carteira assinada. A maioria ficou sem acesso a uma linha de juros mais barata, com teto de 1,79% ao mês, fixado pelo Conselho Curador do FGTS para as operações de antecipação do saque-aniversário. Procurado, o Ministério do Trabalho não se manifestou. Um dos argumentos defendidos pelo titular da pasta,e#59400; Luiz Marinho, é que o novo consignado para CLT, chamado eldquo;Crédito do Trabalhadorerdquo;, vai substituir as antecipações do saque-aniversário. O consignado para trabalhadores do setor privado, em vigor desde julho, permite tomar crédito via aplicativo, sem necessidade de convênio entre o empregador do trabalhador e o banco. Contudo, a taxa média de juros na modalidade está em 3,61% ao mês. Só quem está empregado pode acessar. Quem tem pouco tempo na empresa ou está negativado paga juro mais alto devido ao risco de inadimplência mais elevado. emdash; Isso não ocorre na antecipação do saque-aniversário. Além disso, o valor emprestado não compromete a renda mensal do trabalhador emdash; destaca Gonçalves. Segundo levantamento da Dataprev, estatal de processamento de dados do governo, o consignado CLT atingiu volume de R$ 96 bilhões, mas R$ 35 bilhões foram convênios antigos com bancos que migraram para a modalidade. Para um técnico do governo, a proposta de oferecer ao trabalhador uma opção de crédito mais barata em relação ao empréstimo pessoal dos bancos está funcionando, mas quem está desempregado fica sem atendimento, admitiu. A ABBC já levou o problema ao Ministério da Fazenda e agora busca uma audiência com o ministro do Trabalho, segundo Gonçalves. A entidade defende um piso de R$ 50 para a prestação na antecipação do saque-aniversário e a derrubada da restrição de apenas uma operação ativa por trabalhador.

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Além do consumo, alto endividamento das famílias freia até mesmo a concessão de novos empréstimos

As famílias brasileiras estão mais endividadas e pagando mais caro para tomar crédito, o que tem reduzido a disposição para contratar novos empréstimos, mostram dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC). Em outubro, o endividamento das famílias chegou a 49,3% da renda anual e o comprometimento com o pagamento de dívidas subiu para 29,4% do rendimento médio mensal. Já as concessões de novos empréstimos caíram 6,6% em novembro ante outubro, com a taxa média de juros do crédito total, para famílias e empresas, em 31,9% ao ano, a maior desde 2017. O nível de endividamento é o mais alto desde novembro de 2022, quando a economia ainda estava na retomada em meio à pandemia de Covid-19. Mesmo com os orçamentos domésticos ocupados por dívidas, o volume total de crédito às famílias continuou crescendo. Em novembro, o crédito ampliado às pessoas físicas somou R$ 4,7 trilhões, o equivalente a 37,2% do Produto Interno Bruto (PIB), uma alta de 11,4% em 12 meses. O avanço indica que as famílias seguem recorrendo ao crédito, seja para manter o consumo, seja para reorganizar dívidas antigas. O problema é que esse crescimento vem perdendo intensidade. O estoque total de crédito avançou 9,5% em 12 meses em novembro, abaixo do ritmo de outubro (10,2%). A desaceleração mostra que tanto consumidores quanto empresas estão mais cautelosos na hora de assumir novos compromissos financeiros. Entre as empresas, o crédito ampliado somou R$ 6,8 trilhões, o equivalente a 53,8% do PIB, uma alta de 4,8% em 12 meses, puxada pela emissão de títulos de dívida, o que sugere que muitas empresas têm buscado alternativas fora dos empréstimos bancários. Efeito dos juros Outra forma de constatar a desaceleração é olhar para as concessões de novos empréstimos. Em novembro, houve uma queda de 6,6% frente a outubro, quando se considera o crédito total, para empresas e famílias. Na comparação com novembro de 2024, houve alta de 8,3%. emdash; A desaceleração no consumo das famílias já reflete o efeito do comprometimento da renda com pagamento de dívidas. Nossa métrica de impulso de crédito, que estima o fluxo de pagamentos entre os bancos e as famílias, entrou em zona restritiva no início de 2025 e atingiu o nível mais baixo desde junho de 2023 em novembro emdash; disse o economista sênior Bruno Martins, do banco BTG Pactual. A situação do gerente de supermercado Jean Carlos Pereira, de 30 anos, ilustra os efeitos do endividamento elevado das famílias na economia. Inadimplente desde 2022 com um empréstimo bancário, ele não consegue novas ofertas de crédito. Mesmo assim, Pereira não deixou o problema afetar o Natal da família e disse estar esperançoso de que conseguirá pagar a dívida, contou: emdash; É claro que essa situação é ruim, mas é uma coisa que infelizmente é suscetível de acontecer em um país onde economicamente é desafiador de se viver. Não se pode perder o sono por isso e se deixar abalar emocionalmente, mas cabe ter paciência e na hora certa solucionar o problema. Segundo especialistas, o quadro reflete o efeito prolongado dos juros elevados. O BC elevou a taxa básica Selic de setembro de 2024 a julho passado, para 15% ao ano, o maior nível desde 2006. A taxa básica serve como um piso para todo o sistema financeiro, como se fosse o preço no atacado dos juros. E leva um tempo até que as elevações eldquo;no atacadoerdquo; cheguem às taxas ao consumidor. Para além do crédito total, a taxa média de juros para as pessoas físicas ficou em 37% ao ano em novembro emdash; 59,4% ao ano, quando se considera apenas o crédito livre, que não é regulado pelo governo. Em outubro, as médias foram de 36,4% ao ano e 58,5% ao ano, respectivamente. Conforme o professor Alexandre Jorge Chaia, do Insper, o aumento do endividamento das famílias é afetado também pelo formato das dívidas, que costumam ter prazos curtos e são frequentemente renovadas: emdash; Como muitos dos empréstimos vão sendo renovados, eles são renovados em patamares mais altos de juros, então isso está impactando. Quanto mais tempo ficar com juros altos, maior será o comprometimento e o aumento do valor da dívida totalizada sobre a renda das famílias. Na avaliação de Katherine Henings, pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) e analista da BRCG Consultoria, mais importante do que o elevado endividamento das famílias, é o comprometimento da renda mensal, que chegou a 29,4%. emdash; Quase 30% da renda mensal é utilizada para pagar dívidas com o sistema financeiro nacional emdash; afirmou Katherine. emdash; As famílias ainda têm outros compromissos mensais, como mensalidades escolares, planos de saúde, alimentação e transporte. Atrasos sob controle Apesar do cenário mais difícil, a inadimplência permaneceu relativamente estável. Os atrasos superiores a 90 dias ficaram em 3,8% do total da carteira de crédito em novembro, mesmo nível de outubro, mas acima dos 3% de novembro de 2024. Para as pessoas físicas, o indicador ficou em 4,7%, ante 3,7% no ano anterior. emdash; Por enquanto, o crescimento da renda tem sustentado a inadimplência em um patamar baixo em relação ao nível de endividamento corrente emdash; disse Martins, do banco BTG Pactual. Segundo Fábio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a dinâmica da inadimplência é um sinal de que o pior momento do cenário de crédito começa a ficar para trás. A Peic emdash; pesquisa mensal da CNC sobre o tema, mais ampla do que os dados do BC, pois considera também dívidas não financeiras, como contas de consumo emdash; já mostrou algum alívio em novembro. O percentual de entrevistados com contas em atraso atingiu em setembro a máxima da série histórica, iniciada em 2010, com 30,5%. Esse nível se repetiu em outubro, mas teve uma ligeira queda, para 30%, em novembro. emdash; É um movimento inicial, embrionário, de uma expectativa de melhora emdash; disse Bentes, acrescentando que, o fato de que o mercado de trabalho segue aquecido, com o desemprego nas mínimas, permitirá um recuo mais rápido da inadimplência e dos juros ao consumidor quando o BC começar a cortar a taxa básica Selic. Diante do cenário mais positivo, a CNC projeta um crescimento das vendas do varejo entre 3% e 3,5% em 2026, ante um avanço em torno de 2%, estimado para este ano, mas, segundo Bentes, ainda há incertezas sobre até quanto o BC poderá reduzir os juros. Se a demanda voltar a se aquecer demais, com pressões inflacionárias, a queda ficará limitada. emdash; Ano eleitoral sempre traz surpresas. A preocupação é com o quadro das contas públicas. Se o governo não conseguir sinalizar que vai perseguir a meta, não será possível o juro cair muito. O quadro fiscal vai dar o tom da velocidade do afrouxamento da política de juros emdash; disse Bentes.

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Milho deve representar 42% da produção nacional do etanol em 2035, estima EPE

A produção de etanol no Brasil deve crescer de forma significativa até 2035, puxada sobretudo pela expansão acelerada do etanol de milho, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). A estatal do planejamento energético estima que o etanol de milho pode representar até 42% da oferta nacional do biocombustível em 2035. O estudo recém-lançado pela EPE (na íntegra, em .pdf) traçou cenários de oferta e demanda de etanol entre 2026 e 2035, considerando três trajetórias distintas de crescimento emdash; alto, médio e baixo emdash; a partir do uso de cana-de-açúcar e do milho como matérias-primas. A oferta total de etanol pode variar entre 44,8 bilhões e 58,8 bilhões de litros em 2035, a depender do ambiente econômico, do ritmo de investimentos no setor sucroenergético e do fortalecimento das políticas públicas de incentivo aos biocombustíveis. Em todos os cenários, o etanol se consolida como peça-chave da transição energética brasileira. eldquo;O Brasil se destaca na inserção dos biocombustíveis na sua matriz energética e mantém potencial para ampliar essa participação, apoiado por políticas públicas estruturantes, como RenovaBio e a Lei do Combustível do Futuroerdquo;, cita o estudo. Segundo a EPE, compromissos internacionais assumidos pelo país, como os anúncios feitos no contexto da COP30, em Belém, de quadruplicar a produção de combustíveis sustentáveis, incluindo o etanol, reforçam essa trajetória de longo prazo. Milho ganha protagonismo O avanço do etanol de milho é um dos principais vetores do crescimento projetado. Em 2024, a produção a partir do cereal alcançou 7,6 bilhões de litros, cerca de 20% do total nacional. Em 2025, a produção acumulada até novembro é da ordem de 9 bilhões de litros, o equivalente a 25% da produção total de etanol. Até 2035, a participação do etanol de milho deve variar entre 33% e 42% da oferta total, eldquo;evidenciando sua relevância na matriz energética nacionalerdquo;, destaca a EPE. O crescimento é favorecido por características específicas do cultivo do milho, como a possibilidade de mais de uma safra por ano, majoritariamente em rotação com a soja, e o armazenamento do grão, que permite a operação das usinas ao longo de todo o ano. Além disso, o etanol de milho se beneficia da geração de coprodutos, como o óleo de milho e o DDGS (grãos secos de destilaria com solúveis, na sigla em inglês), utilizado na nutrição animal. A recente habilitação de plantas brasileiras para exportação de DDGS à China ampliou ainda mais o leque de receitas do setor. Cana mais eficiente e novas rotas No caso da cana-de-açúcar, o estudo aponta um processo de ajuste financeiro das usinas, impulsionado pela atratividade do açúcar no mercado internacional e por ganhos de eficiência no campo e na indústria. O levantamento cita, entre os fatores positivos, a renovação de canaviais, a redução de custos de cultivo, o uso de irrigação, a produção de biogás e o avanço do etanol de segunda geração (E2G). eldquo;O aumento projetado da oferta de etanol no Brasil na próxima década não implica, necessariamente, uma expansão proporcional da área agrícolaerdquo;, ressalta o estudo. Segundo a empresa, grande parte do crescimento deverá ocorrer por meio de técnicas poupa-terra, como ganhos de produtividade agrícola e industrial, expansão do milho de segunda safra e maior aproveitamento de resíduos agroindustriais. Nesse contexto, a relação entre expansão da produção de etanol e uso da terra tende a se tornar cada vez mais dissociada. eldquo;O milho segunda safra, cultivado majoritariamente após a colheita da soja em áreas já consolidadas, exemplifica um processo de intensificação agrícola sem expansão territorialerdquo;, aponta o estudo. Bioeletricidade, biometano e emissões Além do etanol combustível, a biomassa da cana tende a ganhar peso crescente no sistema energético. Mesmo na avaliação mais conservadora, a bioeletricidade pode injetar até 4,2 GW médios no sistema em 2035 no cenário de crescimento alto, e 3,8 GW médios no cenário de crescimento baixo. A utilização de resíduos da cana, como vinhaça e torta de filtro, também abre espaço para a produção de biometano. Para o horizonte até 2035, a EPE estima uma geração potencial entre 3 bilhões e 3,4 bilhões de m³, podendo variar conforme o perfil de eficiência e saúde financeira das usinas e a entrada de novos investimentos. Do ponto de vista ambiental, os ganhos são expressivos. As emissões evitadas de gases de efeito estufa pelo uso dos produtos da cana podem variar, em 2035, entre 71,8 milhões e 80,5 milhões de toneladas de CO² equivalente, a depender do cenário de crescimento considerado. Impactos no abastecimento e na gasolina A EPE também avaliou os reflexos dos cenários de oferta de etanol sobre a demanda do ciclo Otto e o balanço nacional de gasolina A. Considerando a produção de gasolina prevista no PDE 2035, o cenário de crescimento baixo exigiria importações ao longo de todo o horizonte de estudo, chegando a 3,5 bilhões de litros em 2035. Nos cenários médio e alto, as importações ocorreriam apenas até 2028 e 2027, respectivamente. Já em uma hipótese mais conservadora, com produção média de gasolina A de 26,3 bilhões de litros emdash; média observada entre 2018 e 2022 emdash;, não haveria necessidade de importação em nenhum dos três cenários analisados. O estudo também analisou os efeitos do aumento do teor de etanol anidro na gasolina C, com a possibilidade de atingir 35%, além da maior destinação de ATR para a produção de açúcar.

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Multa por falta de CBS e IBS em notas é suspensa no início de 2026

As empresas e os microempreendedores que emitem notas fiscais ganharam mais tempo para adaptarem-se à reforma tributária. A Receita Federal e o Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços (CGIBS) decidiram não aplicar multas nem penalidades pela ausência de preenchimento dos campos do futuro imposto sobre consumo nas notas fiscais eletrônicas nos três primeiros meses após a publicação dos regulamentos dos novos tributos. A medida está prevista em ato conjunto publicado nesta terça-feira (23) e faz parte da fase de transição da reforma tributária sobre o consumo, que começará a ser implementada em 2026. A falta de especificação da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS, tributo federal) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS, tributo estadual e municipal) não será punida. Período de adaptação Segundo o ato conjunto, até o primeiro dia do quarto mês seguinte à publicação da parte comum dos regulamentos do IBS e da CBS: não haverá aplicação de penalidades pela falta de registro dos campos da CBS e do IBS nos documentos fiscais eletrônicos; será considerado cumprido o requisito para dispensa do recolhimento dos novos tributos; a apuração da CBS e do IBS em 2026 terá caráter apenas informativo, sem efeitos financeiros, desde que as obrigações acessórias sejam cumpridas. Na prática, as notas fiscais que não trouxerem os campos dos novos impostos preenchidos não serão rejeitadas automaticamente durante esse período. A Receita Federal explicou que, por exemplo: se os regulamentos forem publicados em janeiro de 2026, a obrigatoriedade começa em 1º de maio; se a publicação ocorrer em fevereiro, a exigência passa a valer em 1º de junho de 2026. Regulamentos ainda não foram publicados A decisão foi tomada porque os regulamentos do IBS e da CBS ainda não foram divulgados. A expectativa do governo é que eles sejam publicados apenas no início de 2026, após a sanção do Projeto de Lei Complementar (PLP) 108/2024, que integra a segunda fase de regulamentação da reforma tributária. O texto só foi aprovado pela Câmara dos Deputados no último dia 16 e liberado pelo Congresso na sexta-feira (19). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem prazo de 15 dias úteis para sancionar a proposta. Ano educativo De acordo com a Receita Federal e o CGIBS, todo o ano de 2026 será marcado por uma fase educativa e orientadora, dedicada a testes, ajustes de sistemas e validação de informações. Durante esse período: não haverá recolhimento efetivo da CBS e do IBS; a apuração será usada apenas para simulações e aprendizado; o foco será dar segurança jurídica a empresas, contadores e administrações públicas. eldquo;A diretriz consolida o caráter educativo que marcará 2026, permitindo que os contribuintes ajustem gradualmente seus sistemas e rotinas fiscais ao novo modeloerdquo;, informaram os órgãos. Em 2026, as empresas e os microempreendedores deverão destacar alíquota de 0,9% de CBS e 0,1% de IBS nas notas fiscais. O valor dos dois tributos especificados nas notas será deduzido dos demais tributos sobre o consumo Documentos fiscais que serão usados Os regulamentos do IBS e da CBS irão utilizar documentos fiscais eletrônicos já existentes, como: Nota Fiscal Eletrônica (NF-e); Nota Fiscal do Consumidor Eletrônica (NFC-e); Nota Fiscal de Serviços Eletrônica (NFS-e); Conhecimento de Transporte Eletrônico (CT-e); Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais (MDF-e); Nota Fiscal de Energia Elétrica Eletrônica (NF3e); Nota Fiscal de Comunicação Eletrônica (NFCom), entre outros. Também estão previstos novos documentos fiscais, como: Nota Fiscal de Água e Saneamento Eletrônica (NFAg); Nota Fiscal Eletrônica do Gás (NFGas); Nota Fiscal Eletrônica de Alienação de Bens Imóveis (NF-e ABI); Declaração de Regimes Específicos (DeRE). Normas específicas ainda serão publicadas para operações de importação e exportação. Nova plataforma tecnológica A reforma tributária também prevê a implantação de uma nova plataforma tecnológica nacional, em fase de testes e que será usada para operacionalizar os futuros impostos sobre o consumo. Em 2026, o sistema funcionará sem cobrança efetiva, apenas com destaque simbólico dos tributos. A partir de 2027, começa a extinção do PIS e da Cofins, com a entrada gradual da CBS. De 2029 a 2032, ocorrerá a transição do ICMS e do ISS para o IBS. Segundo a Receita, a transição será gradual, cooperativa e tecnicamente assistida, para evitar impactos abruptos na economia e no cumprimento das obrigações fiscais.

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Agências reguladoras chegam ao menor efetivo de servidores desde 2008

As agências reguladoras federais alcançaram neste ano o menor número de servidores desde 2008. O diagnóstico consta de estudo contratado pelo Sindicato Nacional dos Servidores das Agências Reguladoras (Sinagências), obtido com exclusividade pela Coluna. O quadro geral revela tendência histórica de expansão, com dois picos em meados dos anos 2000 e da década de 2010, seguidos por períodos de estagnação ou redução severa de pessoal em quase todas as unidades analisadas. Para o Sinagências, há impacto direto na atuação dos órgãos. Conforme o estudo, que foi elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), as 11 agências do País contam com atuais 9.776 servidores. Excluindo os dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), criada em 2017, são 8.556 colaboradores ativos, mais de mil a menos do que em 2010. eldquo;As agências não estão recebendo a devida atenção: faltam servidores e orçamento, o que compromete diretamente o desempenho institucional e impacta a atividade econômica do Paíserdquo;, afirma o presidente do Sinagências, Fábio Rosa. Anvisa teve a maior retração A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é a que apresenta a maior retração. O quadro caiu de 2.131 servidores em 2014 para 1.506 atualmente, uma redução de 30%. Em relação ao pico histórico de 2007 da agência, quando atingiu 2.366 servidores, a perda chega a 36%. A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) registrou uma redução de 24% no efetivo entre 2015 e 2025. Seguindo a mesma tendência, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) apresentaram encolhimentos de 20% e 17%, respectivamente, em comparação aos seus períodos de maior quantitativo de pessoal ativo. Mesmo sendo a mais nova entre as reguladoras a ter o quadro montado, a ANM também se destaca em perdas. A agência tinha 1.569 servidores em 2019, número que caiu 22% em apenas seis anos, estando em 1.220 atualmente. Baixas podem comprometer eficiência do Estado As baixas são generalizadas na máquina pública, em um contexto de redução do orçamento e preocupação com a dívida. Para Fábio Rosa, porém, enfraquecer as agências pode ter efeitos opostos. A avaliação é de que o investimento em pessoal não é o vilão, mas que a ausência desse investimento compromete a eficiência do Estado e afeta diretamente a economia. eldquo;Há impactos diretos em setores estratégicos. O complexo econômico-industrial da saúde depende das atividades da Anvisa, enquanto projetos de mineração são fortemente afetados pela atuação da ANM, uma das mais deficitárias em termos de pessoalerdquo;, afirma o presidente do Sinagências. Cargos de carreira têm queda significativa O levantamento evidencia elevado grau de vacância nos cargos de carreira, aqueles que têm reposições previstas em lei. Do total de servidores, parte significativa é de comissionados, cedidos e ou PEC (Quadro Específico). O número de efetivos em carreira de regulação, excluindo a ANM, é de 6.762, 803 a menos do que há dez anos e 3.189 abaixo do previsto nos quadros legais instituídos na criação das agências. As taxas de vacância são especialmente elevadas nos cargos de técnico em regulação e técnico administrativo, que chegam a 41% e 44%, respectivamente. Entre especialistas em regulação, a vacância é de 23%, e entre analistas administrativos, de 28%. PUBLICIDADE O estudo chama a atenção para a defasagem dos quadros legais frente à realidade atual. Na Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), por exemplo, o quantitativo de cargos foi definido em lei de 2004, quando o País se preparava para suas primeiras concessões rodoviárias. Em franca expansão, elas somarão algumas dezenas no ano que vem, ampliando as atribuições sem atualização de pessoal. O concurso nacional unificado, realizado no ano passado, abriu vagas para algumas agências, mas em número ainda muito inferior ao que é visto como necessário. eldquo;O objetivo, agora, é ampliar o debate e buscar apoio para a recomposição. Iremos usar os dados para sensibilizar o Executivo, o Parlamento e setores da sociedade civilerdquo;, diz Fábio Rosa. Qualificação dos servidores é alta Os dados sobre a escolaridade demonstram que os quadros técnicos têm uma qualificação muito superior à exigida pelos cargos. Em agências como a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e a Anvisa, o porcentual de servidores ativos com nível superior atinge 98% e 89% do total geral, respectivamente, evidenciando um alto grau de especialização. Essa tendência de alta qualificação se reflete até mesmo nos cargos de nível intermediário, onde a maioria dos ocupantes já tem formação universitária completa. Na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), por exemplo, a média de servidores com nível superior em cargos que exigem apenas o ensino médio chega a 73%. Outro achado do estudo está no recorte de gênero. As equipes são predominantemente masculinas na maioria das agências. Instituições como a Anac (75%), a ANTT (72%) e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), com 68%, têm ampla maioria de homens em seus quadros, enquanto a Anvisa e a ANS são exceções, apresentando, respectivamente, 58% e 54% de presença feminina.

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