'Fim da escala 6x1 pode diminuir a rotatividade', diz CEO da Plurix, dona de supermercados
A onda de calor que atingiu o Centro-Sul do país no final de dezembro fez o consumo de cerveja disparar nas redes de supermercados Amigão, Avenida, Superpão, Compre Mais, Boa, Dom Olívio, Paraná e no Paraná Atacadista. São cerca de 180 lojas em 90 cidades, em especial no interior de São Paulo e do Paraná, chegando também ao Mato Grosso do Sul e Santa Catarina. A bebida recuperou o patamar de vendas do ano, depois de enfrentar uma primavera fria, e engrossou a lista de promoções das oito redes, cujo controle pertence à Plurix. "O brasileiro não gosta de preço [baixo], gosta de promoção", diz o CEO da Plurix, Jorge Faiçal, 51. "O preço pode nem ser o melhor, mas se o consumidor sente que leva alguma vantagem, ele compra", afirma o executivo, que chegou à Plurix em 2023, depois de quase 30 anos no varejo, com Walmart, Carrefour e GPA (Grupo Pão de Açúcar) no currículo. Acredita que algumas redes estrangeiras, como o próprio Walmart, não sobreviveram à dinâmica do varejo local por não se adaptarem às peculiaridades da clientela. Mas a Plurix divide com as grandes redes de varejo do país a mesma dificuldade: contratação e retenção de mão de obra. Metade dos trabalhadores deixa a empresa todo ano endash;um cenário que compromete a produtividade, dizem especialistas. Faiçal atribui a alta rotatividade ao momento de "pleno emprego" do país, com índice de desemprego de 5,2%, um dos menores da história. "Há quadros operacionais bastante desafiadores, como frente de caixa e repositores de gôndola", afirma Faiçal. "A gente estuda bem de perto a eventual mudança da jornada 6x1, que pode trazer custos adicionais para o varejo, mas também uma redução do nosso e#39;turnovere#39; de 50%, que é muito alto." As eleições deste ano também são fonte de preocupação. "Em geral, ano eleitoral é bom [para as vendas] com mais dinheiro em circulação. O consumo é um propulsor da popularidade dos governos e ajuda a eleger", diz. Mas o ambiente político polarizado exige cautela. "Há muita disputa nos estados em que a gente está presente e no próprio governo federal, o que pode trazer efeitos colaterais não tão positivos para a sociedade", diz Faiçal, ressaltando que nenhuma das redes ou a Plurix assume lado na política. Os planos da Plurix para 2026 As ideias e estratégias do CEO Jorge Faiçal Ampliar uso de IA para identificar feedback de clientes e corrigir mix e serviços Investir em preços competitivos e marca própria Nida a partir de melhores negociações com a indústria Estar alerta aos efeitos da polarização política sobre o consumo, impedindo que redes regionais assumam lado Analisar oportunidades de aquisição nos estados onde o grupo atua Entre os 50 maiores supermercadistas do país, nenhum deu um salto tão grande quanto a Plurix. No ranking 2025 da Abras (Associação Brasileira de Supermercados), a empresa passou do 19º para o 11º lugar, com vendas de R$ 9,4 bilhões em 2024. Em 2025, a previsão é fechar em R$ 10,2 bilhões, o que deve mantê-la na 11ª posição ou fazê-la avançar ao e#39;top 10e#39; do próximo ranking Abras, a ser divulgado em abril. Para o consultor Alberto Serrentino, da Varese Retail, a compra do Amigão, em 2024, ajudou a Plurix a dobrar de tamanho. "Eles não fazem apenas operações de Meamp;A, estão construindo um negócio consistente, com integrações graduais, procurando preservar um alto grau de independência em cada rede", diz o especialista, lembrando que tentativas semelhantes no passado, de criar conglomerados unindo empresas regionais emdash;como Máquina de Vendas e BR Pharmaemdash; não deram certo. Criada em 2021 pela gestora Pátria Investimentos, a Plurix comprou o controle de empresas familiares donas de supermercados, que enfrentavam problemas de sucessão ou financeiros, agravados com a expansão acelerada na pandemia, que comprometeu o negócio quando a taxa Selic atingiu dois dígitos. Faiçal afirma ter duas novas aquisições no horizonte, que podem ser concluídas em 2026. "Temos muitas conversas no forno, onde preço [do negócio] sempre é uma parte importante da discussão." Em 2025, a empresa abriu 12 lojas e avançou no comércio eletrônico, criando uma operação digital para cada uma das bandeiras. "O percentual das vendas on-line ainda é baixo, 2%, mas tem crescido rápido". Também criou uma marca própria, Nida, presente em todas as bandeiras. Para além do investimento no digital e na expansão, o modelo de negócio da Plurix envolve a conquista de escala na negociação com a indústria. "Hoje usamos o poder de compra de uma empresa de R$ 10 bilhões, o que nos garante melhores condições e acesso a grandes fornecedores". O Pátria mantém os antigos donos das redes como sócios, que participam da gestão como presidente ou membros do conselho. As oito bandeiras integram cinco conselhos, em cidades diferentes: Avenida (Cândito Mota-SP); Boa e Dom Olívio (Jundiaí-SP); Paraná e Paraná Atacadista (Campo Mourão- PR); Superpão e Compre Mais (Guarapuava-PR); e Amigão 1 e 2 (Paiçandu-PR e Penápolis-SP). Os fundadores apoiam as tomadas de decisão, como a escolha dos pontos, a prospecção de terrenos, a cidade para qual expandir, além da adoção de práticas comerciais. "Tentamos manter o poder de decisão na ponta, para não repetir os erros das grandes redes, que têm dificuldade em captar nuances regionais." No sul do Paraná, onde a colônia alemã e italiana é mais forte, por exemplo, a preferência é pelo consumo de carne suína. Já no norte do estado, na divisa com São Paulo, a maior demanda é pelo churrasco bovino. Há cidades no interior paulista onde o que mais sai é o bife na bandeja, mas em outras a maioria prefere carne fatiada na hora. "Também existe o apelo de marcas locais, de arroz, açúcar e café, em apresentações variadas, de 1kg a 5kg", afirma. e#39;2026, modo de usare#39; Série entrevista CEOs de varejo, consumo e serviços sobre expectativas e desafios do novo ano e#39;O maior diferencial sou eu à frente do negócioe#39;, diz Pedrinho, dono do Supermercados BH e do Cruzeiro Depois de cortar gastos e reduzir gôndolas, Americanas quer mudar relação com fornecedor e#39;O Brasil empurrou a gente para o Paraguaie#39;, diz a última CEO da família Lupo no poder e#39;É mais fácil ver o que o outro faz e adaptare#39;, diz novo CEO do Carrefour Brasil que já copiou McDonalde#39;s Daikin, que produz ar-condicionado e#39;de luxoe#39;, planeja assinatura do aparelho no Brasil e#39;Sei fazer um sapato inteiro com as próprias mãose#39;, diz Alexandre Birman, CEO do Azzas 2154 e#39;Ninguém acreditava em uma menina vendendo consórcioe#39;, diz CEO da Ademicon que ultrapassou Itaú Mais caro, celular 5G e#39;encalhae#39; e Vivo lança crediário para vender aparelho Visa investe em IA que compra no lugar do cliente, diz CEO da empresa no Brasil Série da Folha entrevista líderes de varejo, consumo e serviços sobre o que esperar de 2026 Na Plurix, a missão de Faiçal é identificar os hábitos e costumes dos consumidores do interior do país e oferecer preços e promoções sob medida, após negociações intensas com a indústria. "Estamos aumentando o nosso nível de promoção, especialmente aquela que acontece do dia 1º ao dia 10, quando as redes travam uma guerra de folhetos, inclusive na TV, em busca do salário que cai na conta do cliente". A iniciativa se mostra fundamental, à medida que o consumidor está cada vez mais cauteloso na hora das compras. "Ele faz muita pesquisa, busca promoção, procura a melhor relação custo-benefício. Como bom brasileiro, dá seus pulos." Em 2026, a Plurix entra no seu quinto ano de atividade. "As teses do Pátria duram entre 5 e 8 anos", afirma o executivo. Isso significa que a gestora deve vender a Plurix ou fazer a sua oferta pública inicial (IPO). "Estamos planejando a saída para daqui dois ou três anos, quando prevemos a retomada da janela do mercado de capitais", diz ele, referindo-se à atual "seca" de IPOs no Brasil, desde setembro de 2021. Os fundadores sabem que seu capital será diluído quando deixarem de ser sócios apenas do próprio empreendimento para se tornarem sócios da Plurix, a partir do IPO. "Serão acionistas de uma companhia bem maior", diz. Questionado se existe certo desconforto dos antigos donos com o atual modelo emdash;em que são consultados, mas não dão as cartasemdash;, Faiçal afirma que as discussões são do jogo. "Aqui todos estão orientados para o norte comum. Discutimos qual caminho seguir, mas todos olham na mesma direção", diz. "Mas quando existem sócios que divergem na essência do negócio, é muito mais complicado", afirma o executivo que, em parte dos 15 anos de GPA, vivenciou as brigas entre Abilio Diniz e o francês Casino. Na opinião de Faiçal, a gestão das empresas familiares costuma ser muito mais intuitiva, e a Plurix não pretende perder essa essência. "Mas o fundo de investimentos traz métricas, aumenta o controle", diz. "Aqui a gente mistura a experiência com a ciência e dá um bom caldo."