Petróleo volta ao centro da geopolítica global após ação dos EUA na Venezuela
A ofensiva dos Estados Unidos na Venezuela recolocou na mesa uma relação marcada por sanções, disputas políticas e interesses diretos no petróleo. A operação patrocinada pelo presidente americano Donald Trump mirou estruturas estratégicas do país e elevou a pressão sobre o governo de Caracas, em um movimento que Washington enquadra como ação de segurança e combate a ilícitos. Na prática, o episódio reacende a discussão sobre o futuro das reservas da Vezezuela, as maiores do mundo, em um momento de reorganização do mercado global de energia.
A leitura predominante dos especialistas aponta para um evento político localizado, inserido em um histórico já conhecido de atritos entre os dois países. Como reflexo, o petróleo oscilou para cima em alguns momentos, influenciado tanto pelo risco geopolítico quanto por anúncios sobre a possível entrega de até 50 milhões de barris venezuelanos aos Estados Unidos.
Ainda assim, ouro, metais e ações do setor de defesa ganharam espaço nas carteiras dos investidores, sinalizando uma postura de cautela seletiva diante de um conflito que segue no radar e depende dos próximos passos de Washington e Caracas.
Para Gerson Brilhante, analista da Levante Inside Corp, a sinalização vinda de Trump aponta para uma política externa guiada por negociações pontuais, com menor peso das instituições tradicionais. Esse tipo de condução amplia a imprevisibilidade em torno de regras, sanções e alianças, o que leva investidores a buscar proteção em ativos defensivos e hard assets, como ouro, petróleo, metais e outros ativos reais usados como reserva de valor.
Mesmo assim, diz ele, o mercado ainda não revisou suas projeções centrais para a economia global.
Na visão de médio prazo, Natalie Verndl, delegada do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon SP), avalia que o rumo político da intervenção passa a ser determinante para os mercados. Se a Venezuela conseguir se estabilizar e voltar a negociar com outros países, o movimento pode destravar investimentos em energia e infraestrutura. Isso tende a gerar efeitos positivos em cadeias ligadas a commodities em toda a América Latina.
Em outra direção, uma atuação prolongada dos EUA, marcada por tensão contínua, costuma trazer mais cautela aos investidores, com pressão sobre o dólar, encarecimento do dinheiro externo e maior sensibilidade das ações brasileiras.
eldquo;No médio e no longo prazos, haverá necessidade do investidor precificar um risco de maior intervenção americana, recalibrando suas expectativas para as políticas econômicas em toda a América Latinaerdquo;, afirma Natalie.
Essa leitura ajuda a entender a análise de Gabriel Estievano Giannoni, diretor de produtos e operações do Mêntore. Para ele, o primeiro efeito aparece nos preços, que passam a oscilar mais, especialmente em commodities e ativos ligados ao crédito. Esse ambiente costuma levar parte dos investidores a buscar proteção. Com o tempo, se houver mais previsibilidade, o mercado de energia pode se reorganizar, abrindo espaço para oportunidades ligadas à dívida venezuelana e mudando o jogo para países exportadores de matérias primas, como o Brasil.
RISCO. José Carlos de Souza Filho, professor da FIA Business School, chama atenção para um movimento mais silencioso, porém relevante. Ele explica que, nesse cenário, a percepção de risco sobre países emergentes tende a subir, principalmente quando há distanciamento político em relação aos Estados Unidos. No caso brasileiro, ele afirma que esse efeito costuma aparecer primeiro no câmbio. No setor de energia, o País vive uma situação dupla: a alta do petróleo ajuda as exportações, enquanto a importação de derivados pesa no bolso da economia doméstica.
Apesar de concentrar grandes reservas, a Venezuela perdeu relevância na produção mundial de petróleo, o que limita sua capacidade de influenciar preços, afirmam especialistas.
Essa linha ajuda a relativizar a ideia de que o petróleo voltou ao centro da geopolítica global. Para Nicolas Lippolis, pesquisador do Centro de Política Energética Global e da Escola do Clima da Universidade Columbia, os tempos mudaram. Os Estados Unidos já atingiram autossuficiência em petróleo, enquanto a China reduz sua dependência do combustível com a eletrificação.
Segundo ele, parte do mercado interpreta as ações americanas como uma tentativa de ampliar o controle sobre a oferta de petróleo do Hemisfério Ocidental, criando mais margem para uma política externa assertiva sem pressionar o preço interno dos combustíveis. Ainda assim, Lippolis vê pouca chance de movimentos semelhantes contra grandes produtores que abastecem a China, como Rússia e países do Oriente Médio, com uma possível exceção no caso do Irã. ebull;