'Espero a poeira baixar': conversas mostram como agia mulher presa por vender bebida com metanol
Mensagens de áudios do celular de Vanessa Maria da Silva, presa e condenada por falsificação de bebidas, mostram como funcionava o esquema de adulteração numa fábrica clandestina no ABC paulista. Usando palavras cifradas nas conversas, ela vendia bebidas alcoólicas como gim, whisky e vodca adulteradas com metanol para intermediários e estabelecimentos de várias regiões de São Paulo.
Vanessa nega a venda de bebida adulterada. O advogado Felipe Brandão questiona o acesso aos dados do celular dela (ver íntegra abaixo). eldquo;A rapidez para condenar contrasta com a morosidade absoluta do processo administrativo instaurado para apurar se houve coação na entrega do celular de Vanessa à políciaerdquo;, afirmou.
Em São Paulo, a Secretaria da Saúde registra 52 casos de intoxicação desde setembro, sendo 12 mortes - a última foi de um jovem de 26 anos, no dia 29. Conforme a polícia, as bebidas falsificadas por Vanessa causaram ao menos duas mortes e deixaram um homem cego. O metanol, altamente tóxico e proibido para consumo humano, é letal mesmo em pequenas quantidades.
Vanessa foi presa em flagrante em uma fábrica clandestina, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, em outubro. Dois meses depois, ela foi condenada em 1ª instância a sete anos de prisão por adulterar, falsificar ou alterar substâncias alimentícias.
elsquo;Mês que vem já normaliza, aí voltamos a vender. Se Deus quiserersquo;
A polícia apreendeu documentos e o celular da falsificadora. Foi a partir desse material que os investigadores começaram a desvendar a distribuição clandestina.
O Estadão teve acesso à transcrição dos áudios descobertos no celular da acusada. No dia 29 de setembro de 2025, quando o número de casos começou a crescer, a acusada revela mudança de estratégia: eldquo;Morreu gente em SBC bebendo etanol. E essa semana vai ter operação em SP e em SBC. Amanhã eu dispenso isso ai pra vc circularerdquo;.
Alguns comerciantes ficaram preocupados com a repercussão, como mostra mensagens de 3 de outubro divulgadas pelo programa Fantástico, da Rede Globo. Vanessa tentou tranquilizar o dono de um bar.
Pode ficar tranquilo quanto as coisas que vocês têm aí. Não é da procedência que esta passando ok pode ficar tranquilo mesmo, não terá nenhum problema.
Vanessa Maria da Silva
Mesmo assim, o cliente decidiu suspender a venda por conta própria. eldquo;Simehellip; porém, achei melhor fazer o recolhimentoerdquo;.
A acusada não cogitou suspender a produção, de acordo com gravação do dia 8 de outubro.
eldquo;Estou esperando abaixar a poeira. Só o (....) que conversou comigo disse que está difícil de vender. Está vendendo pouco. Só cerveja. Acredito que mês que vem já normaliza, aí voltamos a vender. Se Deus quisererdquo;.
Formas para despistar a fiscalização
Ao longo do último trimestre do ano passado, a Polícia Civil realizou várias operações contra a produção e comercialização de bebidas alcoólicas adulteradas por metanol. Diante das blitze, Vanessa sugere que alguns contatos comprem os produtos com nota fiscal para tentar ludibriar a fiscalização. Os nomes dos interlocutores foram apagados para não atrapalhar as investigações.
eldquo;Oi (...), devido a repercussão que esta tendo, sugiro que compre algumas com nota, o que você usa no dia, por exemplo, para no caso da fiscalização aparecer ter uma nota para apresentarerdquo;.
Em diversas passagens, a acusada discute a distinção entre produtos originais e falsificados (referidos como eldquo;passou como origi?erdquo; ou eldquo;fals?erdquo;). Ela menciona que certos produtos precisam de cuidados específicos com o lacre para parecerem originais.
eldquo;Tem itens que não tem como retrabalhar em cima, sem a pessoa saber, entende? Então a gente diminui na quantidade de opções pra que não tenha problema, porque, você sabe, quem é acostumado a comer carne reconhece o paladar do frangoerdquo;, afirmou para um interlocutor em agosto de 2024.
A delegada da Polícia Civil de São Paulo Isa Lea Abramavicus afirma que os produtos falsificados por Vanessa podem ter sido responsáveis pelos casos de contaminação em São Paulo.
eldquo;A gente acredita que esse lote ilegal de bebida que eles fabricavam acabou se espalhando por São Paulo, pela região metropolitanaerdquo;, afirma a titular do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC).
Embora existam indícios da presença de compradores de outros Estados, a delegada evita estabelecer relações entre a fábrica deste núcleo familiar e outros casos registrados no Brasil.
Qual é a principal linha de investigação?
Vanessa recebeu pagamentos de diversos de bares, lanchonetes, padarias e restaurantes de São Paulo, São Bernardo do Campo, Diadema e Guarulhos. Os pagamentos foram feitos, em sua maioria, via Pix.
Para a polícia, o grupo comprava álcool de postos de gasolina para diluir e fabricar vodcas. Dois postos de combustíveis do ABC foram interditados.
Entretanto, o álcool já vinha eldquo;batizadoerdquo; endash; mistura ilegal de etanol com metanol endash; pelos fornecedores dos postos, sem que Vanessa e seu grupo soubessem. Foi uma sobreposição de crimes, de acordo com a polícia.
A Polícia Federal investiga se metanol abandonado por criminosos após operação policial contra infiltração do crime organizado no setor de combustíveis tem sido usado para adulterar bebidas alcoólicas.