'Se o plano de Trump der certo, ele vai ter uma mini-Opep na mão', diz Adriano Pires
A intenção do presidente dos Estados Unidos Donald Trump de intervir na Venezuela, que resultou na deposição do presidente do país Nicolás Maduro, no último sábado, 3, é criar uma nova ordem geopolítica do petróleo no mundo e dar um xeque-mate na China, segundo o economista Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). A China compra 70% do petróleo venezuelano.
Ele observa que, com as reservas próprias de petróleo dos Estados Unidos somadas às da Venezuela, que são as maiores do mundo, Trump terá em suas mãos uma eldquo;espécie de mini-Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo)erdquo;. Isto é, um poderoso cartel, que controla a oferta e os preços da commodity.
Segundo ele, os efeitos para o Brasil podem ser positivos em termos macroeconômicos, com a queda de preços da gasolina, do diesel, recuo da inflação, da taxa básica de juros e aumento das exportações de petróleo para a China.
Já para a Petrobras e outras petroleiras, a queda de preço do barril por conta de uma maior oferta da produção venezuelana pode se traduzir em diminuição das receitas e até na maior disputa por investimentos em novas áreas de exploração, como a Margem Equatorial. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Qual é o real interesse dos Estados Unidos na Venezuela?
O real interesse dos Estados Unidos é ter poder sobre a maior reserva de petróleo do mundo, do ponto de vista físico. Os Estados Unidos não precisam do petróleo venezuelano. Eles têm muito petróleo. E hoje o mercado de petróleo está num momento em que a oferta cresce mais do que a demanda. Por isso, todo mundo está prevendo que o preço do petróleo em 2026 e 2027 deve ficar abaixo de US$ 60 o barril. Na minha opinião, Trump está criando uma nova ordem energética do petróleo, se o seu plano der certo. Ele está dando um xeque-mate na China. A China é o segundo maior consumidor de petróleo do mundo, depois dos Estados Unidos. Trump, com a reserva americana e tendo empresas americanas controlando a reserva da Venezuela, ele vai ter uma espécie de uma mini-Opep na mão dele.
Então, Trump está mudando a geopolítica do petróleo?
Exatamente. Se o plano dele der certo, ele está mudando a geopolítica do petróleo. Ele não quer levar petróleo para os Estados Unidos. Ele quer ter poder no mercado do petróleo internacional, tendo ingerência nas grandes reservas do mundo. A Venezuela é membro da Opep. Mas, hoje, é um membro completamente desprezível, porque a produção da Venezuela é de um milhão de barris/dia. Um milhão de barris corresponde a 1% da produção mundial. Por isso, hoje o preço (do petróleo) não mexeu: o mercado até abriu em baixa, subiu um pouquinho e ficou estável. Esse cenário é diferente do que aconteceu com o petróleo no início da guerra da Rússia com a Ucrânia, quando preço do barril passou de US$ 100. O motivo da alta foi que a Rússia produz 9 milhões de barris. Então, as sanções, na época, criaram a expectativa de redução da produção.
E no caso da Venezuela?
É o contrário. A expectativa da entrada de empresas americanas (na Venezuela) é que a produção volte a crescer. E como, num curto prazo, a oferta é maior que a demanda no mercado de petróleo, a expectativa (com essa mudança) é de que a Venezuela volte a ser um protagonista do mercado internacional de petróleo como produtora. Na minha opinião, isso vai levar a uma queda do preço do barril.
Como fica a China nesse cenário?
Acho que ela leva um xeque-mate, porque ela precisa de petróleo. A China não é uma grande produtora de petróleo. A China hoje deve estar consumindo algo em torno de 13 a 15 milhões de barris/dia. Os Estados Unidos consomem de 19 a 20 milhões de barris. A China precisa de petróleo. Ela estava (comprando) da Venezuela. Isso preocupou os Estados Unidos. A China hoje está muito agressiva na América. Ela é hoje o maior importador de petróleo brasileiro. As empresas chinesas que compraram campos de petróleo no Brasil em parceria com outras empresas estão produzindo algo como 350 mil barris/dia, o que é muito. Os Estados Unidos se preocupam com isso. A China está invadindo uma área que, para o Trump, é de ingerência americana, e não chinesa.
Com esse xeque-mate, como a China deve reagir?
A China vai ter de continuar comprando petróleo de qualquer maneira, mas não vai ter tanto poder que ela poderia ter se aumentasse seus investimentos na Venezuela. Não é à toa, por exemplo, que, coincidentemente, o presidente Trump prendeu o Maduro um ou dois dias depois da visita de um político importante chinês à Venezuela. Ele prendeu Maduro também porque o Maduro tem uma ficha corrida ruim. Escuto pessoas dizendo que ele prendeu Maduro por causa do petróleo. Não, isso aí é uma consequência. O problema é que ele prendeu o Maduro porque, segundo ele, tem uma ficha corrida ruim na Justiça americana, dizendo que é narcotraficante, corrupto e forjou a vitória nas eleições. Então, ele está sendo levado para ser julgado nos Estados Unidos.
O que pode acontecer na indústria de petróleo da Venezuela?
Se o plano do Trump der certo, a indústria venezuelana ressurge. A indústria venezuelana de petróleo já produziu, antes do chavismo, de 3 a 4 milhões de barris por dia, e hoje está produzindo um milhão.
Por que houve essa queda brutal na produção?
Falta de investimento, falta de equipamento moderno, falta de gente técnica mais preparada. Então, se você volta com a ExxonMobil, com a Chevron e outras empresas privadas na Venezuela, há dinheiro para a Venezuela voltar a produzir esses 3 a 4 milhões de barris por dia, que houve no passado com os campos que estão lá.
Quanto tempo vai demorar para ocorrer essa retomada?
Eu não sei, porque em regimes ditatoriais não há transparência. Então, eu não sei como é que está lá o sucateamento desses campos.
Qual é o impacto para o Brasil?
Acho que para a Petrobras e as petroleiras não é bom, porque o preço do petróleo cai e vai ter recuo na receita. Agora, para o Brasil, em termos de economia, é interessante, porque, com o petróleo barato, cai a inflação e o Banco Central vai poder reduzir juros. A Petrobras vai poder baixar o preço da gasolina e do diesel no Brasil, reduzindo a inflação. Mas, em termos de mercado de petróleo brasileiro, a gente ganha um competidor. A Margem Equatorial, que teve o primeiro campo leiloado em 2013, só teve no ano passado a licença ambiental do Ibama para a Petrobras furar o primeiro poço. Os vencedores do leilão de 2013 foram Total, BP e Petrobras. BP e Total foram embora e agora a gente está correndo o risco de ter concorrência do investidor. Isto é, ele vai escolher colocar dinheiro na Margem Equatorial ou preferir ir para a Venezuela.
Vender mais petróleo para a China está fora do radar?
Não, acho que já vendemos bastante, podemos vender mais ainda, com certeza. Até porque o Brasil hoje tem uma produção de quase 4 milhões de barris. A partir de 2027, a gente deve caminhar para os 5 milhões de barris. Acho que a China pode até comprar mais petróleo do Brasil. E as próprias empresas chinesas, em 2027 e 2028, que produzem 350 mil barris, vão produzir mais ainda. Então, o mercado de petróleo brasileiro para a China ficou mais importante, mais atraente.