Produtores criticam importação de biodiesel em meio a debate no MME
Um antigo pleito do setor de distribuição de combustíveis, a possibilidade de importar biodiesel, [...]
Impulsionado por investimentos bilionários de Norte a Sul do país, o etanol de milho já representa mais de 20% da produção nacional do biocombustível e tende a assumir a liderança desse mercado nos próximos anos, consolidando uma eldquo;revoluçãoerdquo; que movimenta o segmento de grãos, tem reflexos importantes para a pecuária e fortalece a posição do Brasil no processo de transição energética global. Mas esse caminho não está livre de percalços, e, no curto prazo, um dos mais importantes será garantir o crescimento da demanda doméstica endash; que, no cenário atual, dá sinais de que logo poderá se tornar um eldquo;gargaloerdquo; para a continuidade da expansão dessa nova e pujante indústria.
O alerta é de Martinho Ono, CEO da SCA Brasil, empresa especializada na comercialização de etanol e biodiesel, em inteligência de mercado e na aquisição de insumos e serviços logísticos para empresas do agronegócio. Um dos executivos mais experientes do ramo no país, ele defende uma urgente eldquo;democratizaçãoerdquo; do consumo interno de etanol em geral, de milho e de cana, com a abertura de novas fronteiras de negócios para as usinas. eldquo;Entre 70% e 80% do consumo é concentrado em São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Goiás e Mato Grosso. Temos que democratizar essa demanda e incentivar as vendas em outros Estadoserdquo;, afirmou Ono ao NPAgro.
Para isso, observou, uma das medidas mais importantes é que os Estados interessados em dar vazão à oferta adicional concordem em oferecer incentivos capazes de conferir competitividade ao etanol em relação à gasolina, como há nos mercados estaduais onde o consumo está consolidado. Ono lembrou que conversas nesse sentido estão em curso na Bahia, no Maranhão e no Piauí, que, não por acaso, estão recebendo investimentos vultosos em novas usinas de etanol de milho. A partir desses eventuais incentivos, também será preciso atrair aportes para uma logística de distribuição eficiente para o biocombustível, além de campanhas de promoção.
eldquo;As fronteiras da cana são mais limitadas que as do milho, e as usinas que produzem o etanol a partir do cereal estão chegando a lugares que não têm tradição de consumo. Há Estados com consumo zero. Portanto, é necessário um trabalho forte na cadeia de distribuição de combustíveis para que essa democratização seja viávelerdquo; disse ele. Como se trata de um produto renovável com claras vantagens ambientais em relação à gasolina, esse pode ser até o menor dos problemas, mas mesmo em São Paulo, que lidera com folga o consumo de etanol no país, volta e meia campanhas de promoção ganham força para preservar consumidores contumazes e atrair novos públicos.
A matemática está a favor da argumentação de Martinho Ono, levando-se em conta que, entre altos e baixos conjunturais, a resultante estrutural indica uma certa estabilidade no consumo dos combustíveis do ciclo Otto (gasolina e etanol) no Brasil na última década. Para as usinas sucroalcooleiras, até recentemente esse era um problema menor, já que os canaviais e o parque industrial do segmento também permaneceram relativamente estáveis no período. Contudo, o etanol de milho, que também vem recebendo aportes de grupos tradicionais de açúcar e álcool em usinas eldquo;flexerdquo; ou projetos independentes, já começou a pesar na balança.
Levantamento divulgado pelo Itaú BBA em agosto apontou que, naquele momento, os investimentos em usinas de etanol produzido a partir de cereais, sobretudo milho, somavam R$ 23 bilhões, com capacidade conjunta de produção de 6,1 bilhões de litros, e que R$ 15 bilhões deveriam ser desembolsados até 2027, com forte impacto no Matopiba (confluência de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). O próprio também já chamava a atenção para a necessidade de uma descentralização do consumo, com foco no Norte e no Nordeste, e de lá para cá novos projetos e investimentos foram anunciados endash; os mais recentes vieram pelas mãos da Inpasa, que já lidera a fabricação de etanol de milho no Brasil.
eldquo;Em 2025, a produção de etanol de milho alcançou cerca de 10 bilhões de litros no país e auxiliou as usinas a darem uma resposta ao mercado após o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina [de 27% para 30%]. Até agora, é boa a relação entre o etanol de cana e o de milho, mas, a partir da safra 2026/27, isso deverá mudar. A disputa não será mais apenas de complementaridadeerdquo;, disse Ono. eldquo;Vale lembrar, ainda, que, da pandemia para cá, as montadoras começaram a vender menos carros, e que os híbridos e eletrificados, que consomem menos combustíveis, ganharam terreno, o que torna ainda mais importante a abertura de novos mercados para o etanolerdquo;.
Segundo dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), do início desta safra 2025/26, em abril do ano passado, até 16 de dezembro, a produção de etanol pelas usinas do Centro-Sul do país totalizou 30,3 bilhões de litros, em queda de 5,4% na comparação com igual intervalo da temporada 2024/25, e que o etanol de milho representou 6,4 bilhões de litros, com aumento de 14,5% em igual comparação. Em toda a safra atual, que terminará em março, o consumo poderá atingir algo em torno de 35 bilhões a 36 bilhões de litros, de acordo com estimativa da SCA Brasil.
Com o marco legal vindo do programa eldquo;Combustível do Futuroerdquo;, que tem por objetivo promover a mobilidade com foco em biocombustíveis, Ono concorda que o consumo poderá subir para entre 48 bilhões e 50 bilhões de litros até 2035, aliviando o eldquo;gargaloerdquo; à vista no curto prazo. E que combustíveis avançados, como os que ganharão terreno na aviação e na navegação, também tendem a jogar a favor do etanol. O fato é que temos um longo percurso pela frente, e é difícil prever o que vai acontecer nos próximos três anos com o consumo ainda concentrado como é atualmenteerdquo;, concluiu o executivo.
Fonte: NPAgro
Fonte/Veículo: Cana Online
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