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Poucas horas após a captura do ditador Nicolás Maduro, no dia 3 passado, o presidente dos EUA, Donald Trump, declarou interesse no petróleo da Venezuela, país que detém as maiores reservas comprovadas do mundo. Segundo o republicano, empresas petrolíferas norte-americanas estariam dispostas a investir bilhões de dólares na recuperação de um setor devastado por anos de gestão temerária sob os governos de Hugo Chávez e do próprio Maduro, com a promessa de consertar a infraestrutura deteriorada e voltar a gerar riqueza endash; sobretudo, claro, para os EUA.

No mercado financeiro, a reação inicial foi positiva. As ações de petroleiras norte-americanas subiram no primeiro pregão após a queda de Maduro, com destaque para a Chevron, única empresa dos EUA ainda em operação na Venezuela. Apesar disso, não houve, até agora, sinais claros de disposição do setor privado para assumir riscos elevados em um ambiente político e institucional profundamente instável.

Livre de seu ditador, agora sob custódia nos EUA em uma prisão de Nova York, a Venezuela continua distante da estabilidade institucional e da previsibilidade necessárias à formação de um ambiente seguro para os negócios. A forma como Maduro foi apeado do poder, somada ao protagonismo que Washington pretende exercer no país, mantém a nação sul-americana sob o signo da incerteza.

A sucessão política, ora em seus primeiros passos, tampouco oferece garantias. Governada interinamente por Delcy Rodríguez, figura que sempre jurou lealdade a Maduro, a Venezuela vive um momento de transição marcado por pressões externas e fragilidade interna. Não está claro quem, de fato, comandará o país, quais regras balizarão a atuação de empresas estrangeiras nem quais garantias jurídicas serão oferecidas aos investidores.

Mesmo que Trump concentre influência decisiva no curto prazo, há um limite temporal evidente. Seu mandato termina em 2028, e projetos no setor de petróleo exigem anos endash; muitas vezes décadas endash; para produzir resultados. Apostar bilhões de dólares com base na proteção política de um presidente cujo sucessor pode adotar visão energética diametralmente oposta é um risco que poucas companhias parecem dispostas a correr.

Essas incertezas se somam a um cenário global profundamente distinto daquele dos anos 1970, quando um número restrito de produtores conseguiu impor choques de oferta e colocar a economia mundial de joelhos. Desde então, novas potências petrolíferas emergiram, entre elas os próprios EUA, além do Brasil e da Guiana, vizinha da Venezuela que passou rapidamente de coadjuvante a protagonista no mapa energético.

Segundo estimativas da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), a soma da produção desses novos atores à de produtores tradicionais, como a Arábia Saudita, deve levar a uma situação de oferta global superior à demanda até o fim da década. A abundância tende a pressionar os preços para baixo endash; possivelmente abaixo de US$ 50 o barril, nível que inviabiliza uma série de projetos de exploração.

Até aqui, portanto, a intenção declarada de Trump de explorar o petróleo venezuelano parece servir mais como instrumento de pressão política do que como plano econômico estruturado de longo prazo. Não por acaso, Delcy Rodríguez abandonou rapidamente o discurso desafiador e passou a adotar uma postura mais conciliadora em relação a Washington.

Ao manter o embargo à produção venezuelana, o governo dos EUA também busca atingir a China, destino de cerca de 70% das exportações de petróleo do país. O efeito colateral, porém, recai sobretudo sobre os venezuelanos. Pequim condenou a ação militar norte-americana, mas não sinalizou qualquer retaliação, até porque dispõe de ampla oferta alternativa.

No xadrez energético global, as ambições de Trump esbarram em limites políticos, econômicos e estruturais. O petróleo venezuelano pode ser uma peça relevante no tabuleiro, mas está longe de ser suficiente para ditar as regras do jogo.

Fonte/Veículo: O Estado de São Paulo

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