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O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta entender os efeitos para os cenários energéticos global e regional de ataque inédito à América do Sul com a ofensiva à Venezuela, que terminou com a captura do presidente Nicolás Maduro e da mulher dele na madrugada do último sábado (3/1).

No mais alto escalão, há quem acredite que o ataque mirou exclusivamente no domínio, pela maior economia do mundo, da produção de petróleo do país, sem interesse necessariamente numa troca de regime. A Venezuela é hoje detentora das maiores reservas do planeta.

Só isso já seria grave o suficiente para criar precedente perigoso, uma das grandes preocupações do governo Lula nos últimos dois meses, após a escalada das ameaças. Hoje, a questão é o petróleo na Venezuela. Amanhã, os minerais críticos e estratégicos em países vizinhos, como balbuciam algumas fontes, sem querer verbalizar o temor com todas as letras.

Trump deixou no ar no próprio sábado ameaças sobre Cuba e Colômbia. Em coletiva à imprensa, o presidente norte-americano disse que a operação avança com as prioridades do America First porque assegura a segurança regional americana e fonte estável de petróleo

Se já está claro que a crise entrou na pauta política e na agenda eleitoral brasileira, ainda não se tem a dimensão do seu impacto econômico. No que diz respeito ao mercado de petróleo, o diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Artur Watt, disse no fim de semana que o Brasil poderia até ser beneficiado. A leitura é de que o primeiro momento será de recuo na produção de petróleo devido à instabilidade geopolítica, o que abre espaço para que o Brasil ocupe esta lacuna. No longo prazo, a depender dos desdobramentos, o cenário poderia atrair investimentos para ativos e operações brasileiras com maior segurança jurídica e internacional.

A Petrobras, embora não disfarce preocupação nos bastidores, não mantém ativos na Venezuela. Por ora, fontes não veem impacto nas atividades de exploração na margem equatorial emdash; que conta, inclusive, com operações de petroleiras internacionais.

Preço do barril

No primeiro momento, a única eldquo;certezaerdquo; de especialistas no setor e de integrantes do governo é de que há uma dúvida em relação à exploração do óleo por empresas norte-americanas e a suposta retomada da produção de petróleo na Venezuela.

A declaração de Trump simplifica a lógica de um setor que é complexo. Em coletiva de imprensa em 3 de janeiro, o presidente norte-americano disse que o petróleo venezuelano será explorado por empresas norte-americanas e eldquo;voltará a fluirerdquo;. Os recursos iriam para o povo venezuelano, mas também pagariam investimentos em infraestrutura.

Falta combinar com os russos: petroleiras norte-americanas devem evitar investimentos de altas cifras em ativos venezuelanos sem que haja um regime legal e fiscal confiável. É o que avalia o presidente do Grupo Consultivo de Energia do Centro Global de Energia, David Goldwyn.

Além disso, a oferta global do petróleo pode demorar para sentir os impactos econômicos de uma eventual eldquo;inundaçãoerdquo; de óleo no mercado, o que atenderia a vontade de Donald Trump de baixar os preços da commodity. Embora a exploração na região seja em terra e águas rasas emdash; o que torna a atividade mais fácil emdash;, a deterioração dos ativos é um desafio para resultados no curto prazo.

Outro sinal amarelo foi o resultado da primeira reunião da Opep+, no domingo domingo (4/1), que reafirmou a pausa no aumento de produção nos primeiros três meses de 2026 emdash; uma decisão para estabilizar os preços dos barris, após uma queda nos valores com incremento da produção.

Quem investe no Brasil emdash; Petrobras, BP e Exxon, por exemplo emdash; está fora da Venezuela. As petroleiras americanas foram expulsas pela nacionalização da indústria petrolífera em 1976. A não ser que Trump torça o braço da americana Chevron, que se mantém no país, para fazer os investimentos, o que é esperado.

A sensibilidade do mercado financeiro traduziu as possibilidades, mesmo que ainda incertas, nos resultados desta segunda (5/1). O preço do barril caiu com a possibilidade de retirada do bloqueio das vendas ao mercado internacional, enquanto as ações de petroleiras norte-americanas disparam.

China será afetada

É cedo para precificar o impacto que o ataque à Venezuela pelos EUA emdash; que anunciaram que vão comandar o país e conduzir a produção de petróleo até que aconteça uma transição que considerem razoável emdash; terá sobre o mercado da commodity no curto e médio prazos. E é neste clima de incerteza que os mercados tentarão se posicionar a partir dos próximos dias. O que é certo que a China será diretamente afetada. E isso cria outro fato de instabilidade não só econômica, mas geopolítica.

Segundo interlocutores, qualquer nova interrupção nas exportações pode ter impacto limitado no mercado global de petróleo, porque se estima uma oferta muito maior do que a demanda em 2026. No ano passado, a Venezuela bombeou apenas cerca de 900.000 barris por dia (bpd), o que significou menos de 1% da oferta global. Por trás disso estariam anos de redução dos investimentos por conta de políticas governamentais falhas e sanções.

As exportações de petróleo bruto venezuelano para os EUA atingiram um pico de 1,4 milhão bpd em 1997, quando somavam 44% da produção da Venezuela, segundo dados da agência americana EIA. O fluxo caiu para 506.000 bpd em 2018, com o aumento da oferta de tipos pesados e#8203;e#8203;concorrentes dos EUA, México e Canadá.

As exportações venezuelanas, que bateram zero entre 2020 e 2022, após as sanções diretas ao petróleo da estatal PDVSA pelo governo Trump, se recuperaram para 227.000 bpd em 2024 e 140.000 bpd nos primeiros 10 meses de 2025, por conta da isenção concedida por Washington à americana Chevron para que continuasse operando suas joint ventures na Venezuela.

Mas o principal comprador do petróleo do país nesses anos após as sanções foi a China, responsável por mais da metade do que se exportou em petróleo bruto da Venezuela (768.000 bpd no ano passado). Trump sabe disso. No próprio sábado, o Republicano deu a entender que a China continuaria a receber algum petróleo venezuelano. Mas sob um governo liderado pelos EUA em Caracas e em quantidade provavelmente limitada.

Cerca de dois terços das importações chinesas de petróleo da Venezuela são destinadas a "refinarias independentes", conhecidas como teapots, que passam ao largo das sanções para comprar petróleo bruto com grandes deságio. Se as sanções forem suspensas emdash; e isso não estaria descartado pela interpretação que alguns analistas estão fazendo das palavras de Trump emdash;, o petróleo seria vendido a preços internacionais, o que acabaria com o incentivo a esses compradores.

O outro terço destina-se ao pagamento das pesadas dívidas de Caracas com Pequim. Não está claro se esse comércio continuará, já que o petróleo provavelmente é entregue a preços próximos ou iguais aos custos de produção, muito abaixo dos preços de mercado.

Tudo leva a crer que a maior parte do petróleo bruto da Venezuela terá como direção os EUA, um mercado muito mais natural do que a China dada a proximidade geográfica, o que torna os custos de frete bem menores.

Se a maior parte das exportações das teapots for redirecionada para os EUA, as importações americanas podem aumentar em mais de 200.000 bpd poucos meses após a medida. Ou seja, mais do que dobrariam.

O petróleo bruto sujeito a sanções dos EUA e do Ocidente chegou a pouco mais de um quinto das importações de petróleo da China em 2024. Isso incluiria 1,4 milhão de bpd do Irã, 268.000 bpd da Venezuela e 821.000 bpd de petróleo russo transportado em navios-tanque sancionados. Os principais compradores são justamente as teapots, hoje concentradas na província de Shandong.

Vale lembrar a ascensão da Malásia como o terceiro maior fornecedor de petróleo da China no ano passado, o que refletiria as importações de petróleo do Irã e da Venezuela rebatizadas para evitar as sanções. As importações chinesas de petróleo bruto da Malásia passaram de 5.400 bpd em 2015 para 1,4 milhão de bpd em 2024. A Malásia, contudo, produziu apenas 565.000 bpd no ano passado.

A reação da China

Um dia antes de sua captura, Maduro recebeu no Palácio Miraflores Qiu Xiaoqi, enviado especial do governo chinês. Participaram da reunião a então vice-presidente Delcy Rodríguez e o ministro das Relações Exteriores, Yvan Gil, além de uma delegação técnica e diplomática da China. A TV estatal venezuelana falou que no topo da agenda estava a revisão de mais de 600 acordos bilaterais existentes.

A China custou a manifestar-se após a ação na Venezuela. Mas diante da dimensão do ataque e dos seus desdobramentos, que têm implicações diretas sobre seus interesses políticos na região e sobretudo econômicos, soltou nota e foi a público no domingo pedir a libertação imediata de Maduro e sua mulher, além do fim da tentativa de derrubar o governo da Venezuela, em declaração dada pelo porta-voz da chancelaria chinesa em Pequim.

Tudo isso está sendo colocado na balança do governo brasileiro, que a portas fechadas se debruça sobre a estratégia que adotará daqui para frente. Um ataque já era esperado em várias gradações. Não por acaso havia uma equipe de prontidão. A surpresa está na forma. A avaliação é a de que a crise na relação com os EUA estava sendo bem conduzida até aqui. Mas o que ocorreu abriria eldquo;um novo capítulo profundamente mais complexoerdquo;, segundo disse ao JOTA uma fonte de alto escalão.

Fonte/Veículo: JOTA

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