Banco Central quer incentivar redução do prazo para pagamento dos lojistas pelas credenciadoras de cartão

24/07/2018

Após a pressão da CPI dos juros bancários, o Banco Central incluiu em suas diretrizes a necessidade de diminuir o prazo que a credenciadora de cartão de crédito tem para repassar o pagamento ao lojista. Atualmente, o empresário espera cerca de 30 dias para receber, independentemente do vencimento da fatura do cliente. No entanto, essa redução não deve ser imediata. O BC já decidiu que não pode simplesmente cortar o tempo em uma canetada, porque inviabilizaria várias startups que entraram no mercado.

A estratégia usada foi pedir para as instituições financeiras para desenvolverem novos produtos com menor prazo e que possam resolver outros problemas que distorcem o mercado brasileiro e são responsáveis pelos juros altos. Um dos principais deles, na visão da equipe econômica, é o subsídio criado quando um lojista vende em “10 vezes sem juros”. A expressão é mal vista entre os técnicos, que explicam que isso não existe. Na maioria dessas promoções, o lojista antecipa o recebível e o banco cobra uma taxa, que é embutida no preço ao consumidor.

Para acabar com isso, o BC pediu para as empresas do setor financeiro criarem produtos em que o cliente possa dividir os produtos num prazo até maior como, por exemplo, 24 meses, com juros mais baixos que a taxa de desconto de recebível. Assim, como quem financiará é o banco que emitiu o cartão, o lojista ainda poderia oferecer mais desconto em uma compra realmente à vista.

— Quando se compra qualquer coisa a prazo, alguém tem de financiar o dinheiro ao longo do tempo. Com o crediário, o banco vai pagar muito mais rápido. Essa mudança dessa dinâmica faz com que o prazo de pagamento seja mais rápido — falou ao GLOBO o diretor de Relacionamento Institucional, Maurício Moura.

A preocupação do BC são as novas empresas que começam a competir no mercado. Se criar uma imposição de uma hora para outra, a autoridade monetária poderia inviabilizar algumas fintechs importantes que já são caso de sucesso, mas ainda não têm o modelo de negócio adaptado para fazer o repasse tão rapidamente. Isso poderia, ao contrário do que é desejado, aumentar os custos para os brasileiros, em vez de reduzi-los.

— O Banco Central insiste que o caminho para prazos de liquidação mais curto tem de ser trilhado com calma. Estamos direcionando o mercado para entrega em produtos modelos de negócios com prazo de liquidação mais curto. O mercado está caminhando nessa direção — disse o diretor de Política Monetária, Reinaldo Le Grazie, que prevê não apenas uma melhora para o capital de giro do lojista, mas um possível aumento do crédito para o cliente. — O mercado está vindo. Provavelmente, daqui a três anos vamos ter outro cenário.

Na semana passada, o Itaú anunciou um novo produto já na linha desejada pelo BC. Lançou a maquinhinha para atrair pequenos negociantes. A Pop Credicard cobrará taxa de 3,98% das vendas no cartão de crédito e promete pagamento em dois dias úteis. Como é um dos maiores bancos do país, o Itaú tem estrutura para prestar esse tipo de serviço.

Dentro do BC, a avaliação é que qualquer determinação radical do BC poderia prejudicar alguns segmentos. Le Grazie citou como exemplo a contratação de artistas para shows como um dos negócios em que é mais interessante receber os recursos com mais tempo. Isso faz com que vários pagamentos sejam efetuados apenas quando o serviço foi prestado. Ou seja, determinar um prazo apenas seria ruim nesse caso.

— O ideal é que você tenha flexibilidade. Por exemplo, pode ter cliente que fale que não precisa receber em dois dias e prefira um preço melhor em 30 dias. Por que o Banco Central falaria que não pode? — questionou o diretor.

É consenso entre os técnicos que o brasileiro usa demais a função crédito do cartão para qualquer tipo de compra. Ou seja, o que deveria ser crédito para consumo se transformou num instrumento de pagamentos corriqueiros que deveriam ser feitos no débito. Isso causa outra distorção no sistema: quem entra no rotativo tem de pagar juros muito mais altos do que o necessário, porque subsidia o dinheiro usado por aqueles que pagam suas faturas em dia.

Para isso, o BC insiste em estimular o débito. Já reduziu o prazo de repasse para o lojista nessa modalidade e espera que isso estimule o comerciante a diferenciar os preços e favorecer os pagamentos à vista.

Procurada, a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito (Abecs) informou apenas que as propostas da CPI ainda estão em análise.

Fonte: O Globo