‘Próximo governo precisa tocar reformas’

18/04/2018

Brasil está com os fundamentos econômicos “no lugar certo” para embarcar em um longo processo de crescimento e desenvolvimento dos mercados. No entanto, esse caminho precisa ser pavimentado com a eleição de um candidato comprometido com a agenda de reformas, avalia o presidente do Bank of America Merrill Lynch, Eduardo Alcalay, em entrevista ao Estadão/Broadcast. Prestes a completar um ano no comando da operação brasileira de um dos maiores bancos dos Estados Unidos, o executivo afirma que mesmo a elevada incerteza por conta das eleições presidenciais não tem minado as operações de captação pelas empresas, mas a seletividade do investidor tem sido marcante. No entanto, ele admite que, à medida que a votação se aproxima, os investidores podem ficar em compasso de espera para terem maior clareza e, com isso, algumas operações “podem ficar pelo caminho”. Para o executivo, “se o próximo governo tocar as reformas, o Brasil pode navegar águas de tranquilidade e de crescimento sustentável. Se acertarmos todos os ponteiros nos próximos um ou dois anos.” Leia os principais trechos da entrevista:

Qual deve ser o impacto das eleições para os negócios?

Ano passado tivemos um período muito forte para as ofertas de ações, com mais de R$ 45 bilhões (incluindo os IPOs de ativos brasileiros que ocorreram fora do Brasil). E tudo isso porque as empresas se anteciparam a um eventual cenário de incerteza à luz das eleições e à possibilidade do mercado estar mais fechado. O mercado, no entanto, não está fechado, há operações relevantes na rua e estamos atuando fortemente nisso. Mas certamente a visão é de que quanto mais se aproximam as eleições, talvez os investidores queiram aguardar.

Os investidores estão mais seletivos com as aberturas de capital?

Desde o ano passado já há muita seletividade, apesar do número grande de operações. Algumas empresas tentaram acessar o mercado e não conseguiram. Hoje temos um cenário global benigno e com disponibilidade de liquidez, em busca de retornos e isso é bom aos mercados emergentes, onde o Brasil está inserido. Sempre há um bolsão de dinheiro disposto a assumir um pouco mais de risco e esse cenário ainda não mudou, mesmo com as questões geopolíticas e sobre guerra comercial.

O mercado de fusões e aquisições tende a sofrer menos impacto da incerteza com as eleições?

Menos, mas é impactado. Essas decisões normalmente são mais de longo prazo. Alguns negócios ficam pelo caminho, mas de maneira não tão sensível quanto os IPOs. O IPO fica pelo caminho, pois chega uma hora que o investidor de bolsa vira e fala: “para, vou esperar’’. Já a decisão, como a da Suzano de comprar a Fibria, é de mais longo prazo.

Bolsa e dólar se estressaram nos últimos dias. Foi identificado um risco eleitoral que não estava na conta antes?

É uma mistura de elementos. Há dias de estresse lá fora com a guerra comercial entre China e Estados Unidos, que causa uma faísca e que afeta aqui. Noutro dia é uma notícia do plano eleitoral. O mercado treme, mas ele volta à normalidade, porque existe liquidez e não existe um ajuste abrupto que pode acontecer nos mercados, seja no mercado local ou no externo.

Então o Brasil está se beneficiando do quadro externo?

O Brasil se beneficia desse quadro benigno mundial, tirando as questões mais recentes de geopolítica, guerra comercial. O mundo todo está crescendo. Existe também um ambiente inflacionário e de taxas de juros globais muito benigno. Com isso, sobra capital para todos os mercados. Isso está nos dando um grande refresco, porque se o mundo tivesse pior estaríamos passando aqui por maus bocados.

Como o banco enxerga o Brasil olhando o cenário para frente?

Os fundamentos do Brasil atualmente são tais que está tudo no lugar certo para o País embarcar em um longo processo de crescimento econômico e desenvolvimento dos mercados. A inflação nunca foi tão baixa e está absolutamente sob controle, sem nenhum sinal de preocupação no médio prazo. Por conta disso, os juros estão em recorde de baixa, o que tira um peso e custo das empresas, dos consumidores e do próprio governo. Isso é benéfico e alimenta a dinâmica para se ter mais consumo, mais investimentos e mais confiança. O Brasil está mirando crescer entre 2,5% e 3% neste ano. Portanto, o País está pronto para embarcar em um processo prolongado, tranquilo e sustentável de crescimento. A grande questão é a sustentabilidade da equação fiscal do governo.

Se as reformas avançarem após as eleições o Brasil vai crescer mais?

Se o próximo governo tocar as reformas, o Brasil pode navegar águas de tranquilidade e de crescimento sustentável. Se acertarmos todos os ponteiros nos próximos um ou dois anos, vejo o Brasil embarcando nesse caminho. As peças estão todas quase lá e temos o benefício de um ambiente internacional benigno para poder embarcar em um processo prolongado de crescimento sustentável. Tem reformas importantes que precisam ser tratadas, pois se não forem pode atrapalhar o enredo todo.

Quando as empresas voltarão a investir?

Temos no Brasil uma ociosidade de capacidade muito grande e muitas empresas não têm necessidade de levantar recursos para investir em uma nova fábrica. E aquela que está chegando perto de sua capacidade, olha para frente e vê uma eleição que será definidora de rumos.

Altamiro Silva Junior e Fernanda Guimarães

Fonte: O Estado de S. Paulo