Com crise no país, brasileiro comprou menos e diminuiu a inflação

21/01/2018

A recessão econômica do país de 2015 para cá contribuiu para que a inflação de 2017 ficasse num patamar baixo na comparação com anos anteriores, alerta a economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Patrícia Lino Costa. “Vale lembrar que, com o desemprego ainda alto, o consumo acaba reduzindo. Logo, muitos preços caíram por causa da demanda baixa, ou seja, porque a economia está desaquecida”, observa. Dessa forma, a taxa de 2,95% registrada em 2017 é também fruto do baixo dinamismo da economia, num universo de 12,6 milhões de pessoas em busca de emprego no trimestre encerrado em novembro, conforme a última pesquisa do IBGE. A taxa de desemprego é de 12%, 0,6 ponto percentual menor em relação ao trimestre de junho-julho-agosto.

“Só que os empregos gerados são precários”, observa a economista. As vagas sem carteira no setor privado cresceram 3,8% frente o trimestre anterior. Em comparação com igual trimestre de 2016, a alta foi de 6,9%, enquanto que as vagas sem carteira tiveram um decréscimo de 2,5%.

Embora muitos produtos possam ter seus preços reduzidos em razão do consumo baixo, nem todos obedecem essa lógica do mercado, observa o mestre em administração com ênfase cadeia produtiva e coordenador do curso de relações internacionais do Centro Universitário Newton Paiva, Leandro César Diniz da Silva. É o que ocorre com os preços administrados – energia, água, combustíveis e transportes. “Mesmo com a demanda reprimida, os combustíveis continuam subindo”, observa.

O motivo para a alta dos combustíveis, mesmo num cenário ainda desaquecido da economia, foi a nova política de preços da Petrobras, adotada desde 3 de julho de 2017, que permite que a área técnica de marketing e comercialização reajuste na refinaria os preços dos combustíveis, visando acompanhar a taxa de câmbio e as cotações internacionais de petróleo e derivados. E para ajudar a aumentar o valor do produto, no mesmo mês, houve reajuste na alíquota do PIS/Cofins dos combustíveis. Na gasolina, a alíquota passou de R$ 0,3816 para R$ 0,7925 por litro.

Além do impacto da demanda, a maior queda no preço dos alimentos em quase 30 anos em 2017 foi determinante no desempenho do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – a inflação oficial do país. O coordenador do curso de economia do Ibmec-MG, Márcio Salvato, ressalta que a safra, 30% maior que a de 2016, impactou no preço do grupo alimentos e bebidas, que teve queda de 1,87% em 2017. Segundo o IBGE, responsável pelo cálculo da inflação, esse grupo é responsável por 1/4 das despesas das famílias, sendo a única vez que ele teve deflação no ano desde a implantação do Plano Real.

Gás. A Petrobras reduziu, na quinta-feira, o valor do botijão de gás de uso residencial em 5% e informou que as revisões de preços serão trimestrais, e não a cada mês, como vinha acontecendo.

Preços administrados são os grandes vilões

Os produtos e serviços administrados foram os vilões da inflação de 2017 e devem continuar pesando no bolso do consumidor neste ano, conforme especialistas. “O problema é que são produtos de difícil substituição”, frisa o especialista em cadeia produtiva Leandro César Diniz da Silva. No ano passado, o grupo transportes teve alta de 4,10%, superando a inflação média (2,95%). Esse grupo detém o segundo maior peso no IPCA, com 18%, só perdendo para alimentação e bebidas.

A gasolina teve alta de 10,32%. Se o consumidor trocar o carro pelo transporte público vai continuar pagando caro, embora em patamares diferentes. O ônibus urbano teve elevação na tarifa de 4,04%, e o intermunicipal, incremento de 6,84%. “Agora, no caso da energia, não existe a possibilidade de trocar de empresa em busca de um preço melhor. E existe um limite para a economia no uso”, diz.

Sem estimular o consumidor

A inflação num patamar mais baixo não vai garantir aumento do consumo, conforme o especialista em cadeia produtiva Leandro César Diniz da Silva. O motivo é que o desemprego ainda está elevado. Já a economista do Dieese Patrícia Lino Costa observa que o valor de R$ 954 impõe ao salário mínimo perda acumulada de 0,34% nos últimos dois anos, o que o faz retornar ao mesmo valor real de janeiro de 2015.

Preços ainda mais altos em 2018

As perspectivas para a inflação pelo Índice de Preço ao Consumidor Amplos (IPCA), do IBGE, deste ano não são das melhores, já que as projeções dos analistas são de alta acima da verificada em 2017. A expectativa do mercado medido pela pesquisa semanal Focus do Banco Central é de alta de 3,95% (projeções feitas a última segunda-feira). O aumento previsto em energia, combustíveis e impostos, além de safra menor, é apontado como fator que contribui para a elevação da taxa neste ano.

Para o coordenador do curso de economia do Ibmec-MG, Márcio Salvato, os combustíveis, que continuam com a mesma política de preços adotada pela Petrobras no ano passado, e a energia elétrica devem pressionar a elevação da taxa. “Com os níveis dos reservatórios mais baixos este ano, a perspectiva é de mais bandeiras vermelhas. Logo, deverá continuar pressionando”, analisa o especialista.

Para o especialista em cadeia produtiva Leandro César Diniz da Silva, como o governo não reduz seu gasto, precisando de mais recursos, a alternativa é elevar impostos, o que tem impacto em toda a cadeia produtiva.

Diniz da Silva lembra que em dezembro do ano passado, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, voltou a afirmar que o governo pode aumentar impostos para cumprir a meta fiscal.

Juliana Gontijo

Fonte: O Tempo/MG